12/07/12

A opinião dos observadores é consensual: a UE deu um importante passo na direcção certa sobre o caminho a seguir, embora não tenha feito o suficiente para resolver a crise.

Discordo e penso que foi um grande passo na direcção errada. A cimeira fez depender uma decisão concreta para a resolução da crise de uma decisão futura. Sendo esta mais difícil de alcançar, maiores serão também as probabilidades de vir a fracassar.

Os líderes europeus acordaram que não haverá uma recapitalização comum dos bancos enquanto não for estabelecida uma união bancária plena, porém, o Bundesbank recorda que esta não é possível sem uma união política. Implicação lógica: a crise não será resolvida nos próximos 20 anos.

O que sabemos agora é que a Alemanha vai rejeitar uma garantia comum para os depósitos bancários, visto nem sequer aceitar que se atribua ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) uma licença bancária para este poder alavancar-se. Se a Alemanha não faz o mínimo necessário agora, quem pode ter a veleidade de pensar que virá a aceitar uma união política?

A união bancária de que a Europa necessita é precisamente aquela que a Alemanha não vai aceitar: regulação e supervisão central, um fundo comum de reestruturação e uma garantia comum para os depósitos. Isto levaria anos a criar e, para ser bem feito, teriam de ser introduzidas mudanças nas constituições nacionais e nos tratados Europeus, somente para redefinir o papel do Banco Central Europeu (BCE). É pura loucura fazer depender a resolução da crise do êxito daquele que seria o maior exercício de integração europeia na história.

Com as taxas de juro dos títulos de dívida pública a dez anos acima dos 6%, Itália e Espanha não terão condições para manter-se na zona euro. Era isto que Mario Monti e Mariano Rajoy deviam ter deixado claro perante Angela Merkel, bem como a necessidade de fazer preparativos para a saída da zona euro se a política actual não mudar. A solução passa pela emissão de ‘eurobonds’ – ou outro modelo de mutualização da dívida – no sector público e privado, e pela compra de obrigações por parte do BCE. A Alemanha rejeita a primeira solução e o BCE não aceita a segunda.

Ora, quando uma dada situação não é sustentável nem auto-corrigível, só resta uma de duas soluções. A primeira é esperar pacientemente até ao colapso – estratégia seguida pelo Conselho Europeu e pelas pessoas que sofrem de alcoolismo. A alternativa é tomar medidas e evitar um eventual colapso durante o processo. Com efeito, é difícil perspectivar uma solução que não infrinja centenas de leis nacionais e europeias, daí que ninguém se atreva a fazê-lo.

Foi preciso uma década para construir o euro e será preciso mais do que um longo fim-de-semana para destruí-lo. Um colapso seria, sem dúvida, o maior choque económico da nossa era. No entanto, dentre uma lista de possíveis “modelos” de ruptura – todos eles maus -, alguns são melhores que outros.

Em Novembro, escrevi que o Conselho Europeu (CE) tinha dez dias para salvar o euro. Se então tivessem sido delineadas as fundações de uma união orçamental e bancária, talvez agora as autoridades europeias estivessem em condições de concertar uma estratégia eficaz para resolver a crise, que envolvesse a recapitalização bancária e a compra de obrigações. Não o fizeram então e não estão em posição de resolver a crise agora.

A principal ilação que retirei da cimeira é que a zona euro não vai resolver a crise. Neste sentido, pode dizer-se que foi, de facto, uma cimeira “histórica”.

Tradução de Ana Pina
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Wolfgang Münchau, Colunista FT

http://economico.sapo.pt/noticias/crise-da-zona-euro-vai-durar-20-anos_148188.html

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