O homem que tem feito as previsões mais sombrias sobre a crise veio ao Brasil. Se ele estiver certo, prepare-se para o fim dos tempos

Published on maio 6, 2009 by   ·   No Comments
Cara a cara com o Apocalipse 

NOURIEL ROUBINI: em pouco mais de uma hora, ele falou em “coma”, “tsunami”, “Armagedon” e “Triângulo das Bermudas” macroeconômico

COM VOZ DE BARÍTONO E pinta de pastor, o locutor Cid Moreira conseguiu vender 30 milhões de cópias de um CD contando as histórias do Velho Testamento, desde o Gênesis aos livros proféticos. Mas se houver um narrador para o final dos tempos, o posto será ocupado por um economista turco, radicado nos Estados Unidos, que veio ao Brasil na semana passada. Chamado de “Dr. Apocalipse”, Nouriel Roubini esteve em São Paulo, na quarta-feira 11, a convite da BTG, dos financistas André Esteves e Pérsio Arida. Com uma voz igualmente gutural, um certo ar de Conde Drácula e um inglês marcado pelo forte sotaque do Leste Europeu, ele fez jus à fama. Começou dizendo que a economia mundial está em “coma”. Depois, disse que um dos clientes de sua consultoria, uma das maiores multinacionais americanas, lhe confidenciou não saber se, daqui a dois anos, a empresa ainda estará viva. Roubini falou em “tsunami”, em “Armagedon” e também num “Triângulo das Bermudas” macroeconômico. Chegou até a brincar com a plateia, recheada de figurões, como Carlos Jereissati, da Oi, e Luiz Fernando Furlan, da Sadia, sugerindo que talvez fosse o caso de se estocar “armas, munição e alimentos”. E avisou que o mundo não sairá da recessão atual antes do fim de 2010. Ao tentar defini-la, disse que ela não terá o formato de um V (queda abrupta seguida de recuperação), admitiu que talvez seja um U (tombo com retomada lenta), mas apostou na chance cada vez maior de um L (precipício sem retorno a médio prazo). “Já estamos na maior recessão dos últimos 60 anos”, disse ele.

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Talvez Roubini encarne apenas um personagem de filmes de terror. Mas como foi o primeiro economista a prever, com boa antecedência, a intensidade da crise atual, ele passou a ser ouvido. E sua mensagem assusta. A crise dos bancos, segundo ele, ainda está longe de terminar. Créditos podres contabilizados somam US$ 1,2 trilhão. “Mas o número pode chegar a US$ 3,6 trilhões”, diz Roubini. Agora, segundo o portavoz do Apocalipse, não se trata mais de subprime imobiliário. O contágio da crise financeira na economia real fará com que também apodreçam empréstimos que antes pareciam bons, como cartões de crédito, financiamentos de automóveis e dívidas corporativas. Nem mesmo o anúncio feito pelo Citibank na semana passada, de que voltou a lucrar nos dois primeiros meses de 2009, mudou o ânimo de Roubini (leia quadro ao lado). “Aquilo foi uma piada”, disse à DINHEIRO. “O Citi já se foi e o que me preocupa é como estará a situação do JP Morgan daqui a seis meses.”

A vinda de Roubini ao Brasil também marcou a reaparição de Pérsio Arida, ex-presidente do BNDES e do Banco Central. E o recado não foi nada otimista. Para aqueles que defendem uma dose maior de ativismo governamental, Pérsio respondeu com ceticismo. “Governos gastam mal e lentamente”, disse ele. “E as pessoas precisam aprender que existem problemas para os quais não há solução.” Pérsio comparou o momento atual à crise vivida pelo Japão nos anos 90, que provocou dez anos de estagnação – só que, desta vez, o problema se dá em escala global. Como enxerga a deflação como a maior ameaça, o ex-presidente do BC sugeriu que países desenvolvidos, como os Estados Unidos, anunciem metas de inflação a serem perseguidas. E disse ainda que a crise ajudou a desconstruir vários mitos: o de que ações são o melhor investimento no longo prazo, o de que se deve sempre comprar na baixa (pois ninguém sabe quão fundo é o poço) e o de que os BRIC´s resistiriam impávidos. Destilou-se tanto pessimismo no evento de lançamento da BTG que o principal sócio da firma, André Esteves, teve de fazer um alerta. “Esses cenários realistas não significam que não haja boas oportunidades de investimento”, disse ele. No mesmo dia, Esteves anunciou a aquisição da gestora de fundos Lentikia, de Patrice de Camaret, que tinha US$ 700 milhões em carteira. Com isso, a BTG passa a gerir US$ 1 bilhão. Mas num ambiente tão arriscado, o ativo mais mencionado no dia foi o ouro – justamente uma proteção para tempos de aguda depressão econômica.

fonte: ISTOE Dinheiro

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